terça-feira, 6 de setembro de 2011

A Fala do Astro

No último domingo, o "Domingão do Faustão" levou ao ar um quadro chamado "Dança dos Famosos", que é mais um daqueles elementos simplórios de como nossa sociedade cultua as "celebridades" que surgem, pelo simples fato de existirem - seja cantando, dançando, enfurnada numa casa 24 horas por dia, fazendo o que não importa.

Aí, nesta competição, há um corpo de jurados. E entre eles, Rodrigo Lombardi, ator em ascensão, protagonista de "O Astro", me diz o Google. Que resolve, lá pelas tantas, assim justificar sua emoção com a dança recém-executada:





Não quero, aqui, julgar o talento do Rodrigo, que segundo o Google (sim, ele me ajuda muito) já tem anos de carreira. Nem vou execrá-lo em praça pública, já há quem o faça, e aos montes. Quero falar de um buraco que tá bem mais lá embaixo.

O racismo no Brasil é natural. As pessoas falam sem perceber que errar é "coisa de preto", nos apontam o elevador de serviço "porque é assim mesmo", a polícia aborda os nossos porque somos "criminosos em potencial", o nosso cabelo é "ruim", e por aí vai. Tão natural que Rodrigo, estrela global - e, portanto, um cara que ajuda a ditar as regras comportamentais no Brasil - arrotou essa barbaridade sem nem ter percebido a merda que tava falando.

Não percebeu porque, na cabeça dele e da classe dominante (e de boa parte do povo preto), ser bom é ser loiro, dos olhos azuis, cabelos lisos. Não é coincidência o número absurdo de mulheres colocando seus cabelos em contato com um produto que, pra ser aplicado, exige máscaras e luvas de quem o manuseia. Olha o que isso faz mal - mas torna aquele cabelo "descuidado" algo socialmente aceito.

Um monte de gente corre pra acudir o Rodrigo, que parece até ser boa gente, até porque não nos lembra os Bolsonaros da vida. Mas é um cara que, tendo uma imagem muito mais simpática que o nobre deputado, faz um estrago muito maior do que ele ao falar sem usar o cérebro que, suponho, ele deva ter. Porque o preconceito racial no Brasil é o mais perverso que pode existir: velado, internalizado, natural. O indivíduo quase que já nasce entendendo o negro como alguém inferior, servo, menos capacitado.

E é tão natural que, amanhã, ninguém vai lembrar de porra nenhuma. Ou alguém fala do Bolsonaro? Da Myriam Rios? Ou da limpeza étnica promovida em nome dos megaeventos de 2014 e 2016 no Rio de Janeiro? É esse silêncio que mata. Porque as crianças veem esse estardalhaço todo durar alguns dias, mas absorvem cada palavra, gesto, olhar, pra além desses dias. E tenhamos certeza de que, assim, estamos formando crianças brancas racistas, crianças negras que terão a certeza de serem inferiores, em suma, um mundo muito pior.

Enquanto a discussão que é feita, de forma indignada, na Academia, ou nos coletivos de luta do movimento negro, não ganhar o subúrbio, as favelas, as periferias, a sociedade vai se indignar, levantar voz, execrar o racista em questão, e pronto, vai guardar tudo, beijo, onde é o churrasco?, e até a próxima.

Porque sempre tem a próxima.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Morre o Moto


O texto já tem quase um ano, eu sei - e, em Internet, isso quer dizer séculos. Mas é simplesmente o melhor texto sobre futebol que eu já li em toda a minha vida.

Exatamente porque não se resume ao futebol.

Morre o Moto

Por Luiz Antonio Simas
http://hisbrasileiras.blogspot.com/2010/08/morre-o-moto.html

Recebi hoje a confirmação de uma notícia lamentável. O Moto Club de São Luís, um dos principais clubes do Maranhão, dono de imensa torcida, encerrou as atividades no futebol profissional neste último dia 27 de agosto. A diretoria do Moto declarou não ter mais condições para manter o time diante das demandas do futebol atual [leia-se: falta grana].

Lamentável, rigorosamente lamentável , mais esse capítulo da transformação do futebol brasileiro em um ramo do big business, da consolidação dos clubes como valhacoutos de escroques travestidos em empresários e da proliferação de jogadores-celebridades desvinculados da história e das tradições dos times.

Morre o Moto no momento em que morrem também as camisas dos clubes, mantos sagrados transformados em vitrines de exposição de toda a sorte de produtos: telefonia celular, pomada de vaca, plano de saúde, leite condensado, funerária, montadora de automóvel, empresa da construção civil e quejandos. Dia chegará em que os escudos serão tirados da camisa para sobrar espaço pra mais um jabazinho e ninguém perceberá.

Morre o Moto em nome da gestão empresarial, da modernização dos estádios, do estatuto do torcedor, dos fabulosos investimentos para a realização da Copa de 2014, dos técnicos com salários de quinhentos mil reais, dos bandidos da bola e dos apóstolos dos gramados e seus moralismos de ocasião.

Morre o Moto como corre o risco de desaparecer a tradição do tambor de crioula do Maranhão. Nas palavras de um velho tambozeiro que conheci em Alcântara, os lugares onde se podia escutar o tambor são agora destinados ao reggae, para a alegria de antropólogos moderninhos e antenados que vêem em qualquer mistureba uma prova de vitalidade cultural. Viva o moderno e que se dane o eterno, goza o deus mercado.

Morre o Moto como pode morrer a Casa das Minas, venerável matriz da religiosidade afro-maranhense. As moças mais novas, dizem as velhas do tambor, não se interessam mais pelo legado de voduns e encantados e não há mais tempo disponível para o longo aprendizado do mistério demandado pelo Tempo maior.

E alguém, por acaso, sugere o que deve fazer o torcedor do Moto? Escolhe outro clube, com a naturalidade de quem muda de roupa e troca um objeto quebrado pelo novo? E os senhores de setenta e poucos anos que viram e viraram Moto durante a conquista do título da Copa Norte-Nordeste de 1947 e do Torneio Campeão dos Campeões do Norte em 1948?

E a nova geração - os netos dos fundadores e torcedores do velho Moto Club, o Papão do Norte, Rubro-Negro da Fabril - torcerá para quem? É simples. Os moleques torcerão, evidentemente, pela Inter de Milão, Barcelona ou Milan. Viva a globalização! Ou, na melhor das hipóteses e como é comum ocorrer, pelos clubes grandes do sul maravilha. Mas, ai deles, não terão o pertencimento que só o clube da aldeia é capaz de proporcionar.

O velho torcedor, e como é duro constatar isso, está morrendo. Em seu lugar surge o cliente dos tempos do futebol-empresa. Somos agora, os que queremos apenas torcer pelo time, tratados como clientes nos estádios, consumidores em potencial de jogos, pacotes televisivos, produtos com a marca da patrocinadora e outros balacobacos.

Morre o Moto como morre a aldeia, a terra, a comida da terra, a várzea, a esquina e o canto de cada canto. Morre o Moto como amanhã dançará, no corpo da última sacerdotisa do Tambor de Mina, o derradeiro encantado em pedra, flor, areia e vento da praia do Lençol.

Morre o Moto como morrerá, em alguma madrugada grande, o último tocador do tambor de crioula e com ele a arte de evocar no couro a memória dos mortos. Ninguém saberá como bater o tambor que convida os ancestrais a bailar entre os vivos. Seremos apenas - e cada vez mais - homens provisórios, desprovidos da permanência que só a ancestralidade e a comunidade garantem.

Morre o Moto enquanto se desencanta o mundo.

sábado, 16 de julho de 2011

Minha Gênese


Se a violência aumenta, se os casos de racismo são cada vez mais recorrentes, se a exploração aumenta de forma brutal, antes de seguirmos na luta por uma sociedade diferente, precisamos saber de onde viemos. E, embora a escola não nos ensine, viemos de um povo cuja história é rica em resistência, cultura, ancestralidade e amor. Que não percamos essa dimensão.

E que, cada um do seu jeito, encontre o seu lugar nessa luta.

Nossos ancestrais, os que morreram por nós, merecem.

Encontrei Minhas Origens


Encontrei minhas origens
em velhos arquivos
....... livros
encontrei em malditos objetos
troncos e grilhetas
encontrei minhas origens no leste
no mar em imundos tumbeiros
encontrei em doces palavras
...... cantos
em furiosos tambores
....... ritos
encontrei minhas origens
na cor de minha pele
nos lanhos de minha alma
em mim
em minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei
encontrei-as enfim
me encontrei

(Oliveira Silveira)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

"Será que no céu é assim?"


Pelo título do blog - e por esta postagem, feita mais de dois anos atrás - já dá pra perceber o quanto eu gosto de samba. Não consigo imaginar um ritmo mais genuíno, mais verdadeiro, que seja mais a minha história, a história do meu povo, e que apesar de usado por tantos, desviado por muitos, continua altivo, forte, célere. E responsável por momentos deliciosos.

Certa vez, há alguns anos antes de hoje, num samba em Oswaldo Cruz, vizinho à Madureira, bairros que somados à Vila Isabel (há controvérsias) formam o que um dia ouvi chamar de o berço do samba (aliás, só o samba pra ter três berços...), estava um clima único, realmente especial: o som perfeito, a companhia perfeita, a sensação perfeita, enfim, a vida exatamente como deveria ser sempre, ou quase sempre. Rostos, sorrisos, palmas, abraços, beijos, tudo harmoniosamente sambista. Em resumo, o cenário perfeito pra qualquer história de amor, e pra qualquer amor, desde que verdadeiro.

Tanto que, lá pelas tantas, uma senhora, um tanto velhinha, cruza o nosso caminho e, extasiada, inebriada, feliz, braços abertos pro alto, nos pergunta, na lata: "Será que no céu é assim?"

Não quero, aqui, recorrer a clichês um tanto preconceituosos, chamando de ruim da cabeça e doente do pé quem não concorda comigo. Todos têm o direito de curtir os "Restarts" e "Luan Santanas" da vida. A discussão é outra. E meu argumento defende a impossibilidade de existirem sensações tão lúdicas em momentos onde estejamos curtindo gêneros efêmeros, meramente comerciais.

Nâo sou um iludido, como pode parecer. Nem o samba escapa do modo de produção capitalista, que tudo transforma em mercadoria - tudo mesmo, até sua capacidade de amar. É óbvio que as expressões comerciais também afetam o samba e, tirando dois ou três grupos, o restante é um marasmo total. Infelizmente é assim, e enquanto não for tudo posto abaixo e recomeçarmos a sociedade praticamente do zero, assim será.

Além de tudo o que o capitalismo nos aliena, materialmente falando, estão nos tirando também nossa capacidade de se apaixonar, de viver plenamente. Por exemplo, tiraram nosso direito de falar por tanto tempo e, agora, aos poucos, estão tirando de novo. Hoje tudo tem um preço - e não costuma ser barato, não pra mim, nem pra você, que tá me lendo. Você paga pra nascer (você não, sua mãe, seu pai), pra aprender, pra namorar, pra trabalhar, quando fica doente e até quando morre (você não, seu filho, sua filha).

A essa altura dessas linhas mal escritas, você se pergunta: e daí? Daí que, pra mim, naquele mundo em Oswaldo Cruz, pelo menos naquele instante, ao lado da minha felicidade, da minha gente, num cenário tão lúdico, nada perverso assim entraria. Feliz sou eu, que tenho o privilégio de perceber e viver momentos lindos como esse. Feliz foi a velhinha que percebeu e, com a sabedoria de quem viveu tanto, se imaginou no céu.

E, por essas e tantas outras, meu céu na terra é o samba.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Rei


Foi meu primeiro ídolo na vida, como já tive vários. Hoje, não tenho nenhum. Mas quando criança, me lembro de imitá-lo (quem nunca fez isso?). Era fantástico vê-lo dançar, cantar, hipnotizar qualquer um que o visse. Muito será dito. Filmes, documentários, teorias da conspiração, tudo isso e mais ainda será ventilado aqui, ali, nos quatro cantos desse mundo. Sim, nos quatro, porque um Rei tem alcance mundial. E, hoje, o planeta ficou menos talentoso, a música perdeu parte preciosa de si.

Perder... a maior dádiva que a música nos dá é fazer com que as obras criadas fiquem pra sempre. Portanto, não sei se perder é bem a palavra. Mas, certamente, o mundo da música estava em suspense pelos shows do Rei, no mês que vem, em Londres. Era a volta de um cara que reinventou a música, recriou o videoclipe, influenciou muita gente. Em resumo, era a volta aos palcos do artista cujo álbum foi o mais vendido da história até hoje. Desde 1982.

Michael Jackson inspirou mães pelo mundo, que queriam ver os seus filhos com nomes de um Rei. Michael foi o primeiro artista negro a chegar ao topo das paradas de sucesso dos Estados Unidos e da Inglaterra, ao mesmo tempo. E lá ficou até que sete das nove músicas do avassalador "Thriller" fossem curtidas, consumidas, apreciadas, todas em primeiro lugar em tais listas musicais. Eram os súditos, saudando a chegada do Rei. E assim, seu recorde, de 100 milhões de cópias vendidas, certamente nunca será superado, ainda mais em dias de pirataria, YouTube e músicas MP3 - por falar em tecnologias, o último ato do Rei foi derrubar o Twitter, a nova febre da Internet, que ficou fora do ar por intermináveis horas, tamanha a quantidade de acessos em busca de notícias de Sua Alteza, o Rei do Pop.

Ao anunciar novos shows, para 2009, vimos todos os ingressos se esgotarem em um dia. Ali se entendeu que ele sempre foi grande, único. Talvez o sentimento de perda, do qual falei lá no início, se refira à isso: imagens que nunca veremos, de um Rei de encontro com o que reinventou, de encontro com seus seguidores. A imagem de um espectro será esquecida, e na memória de todos, assim como aconteceu com Elvis, ficará aquele gênio em estado puro, imortalizado através de sua dança, sua música. Um dia será dito que "Michael não morreu". E, talvez, não mesmo...

Só nos resta agradecer. E continuar ouvindo, apreciando e mostrando aos nossos filhos, netos, que nós tivemos o privilégio de ver um gênio em ação. Alguém que, enquanto pôde, tratou a música como ela merece, como algo único, tratando-a com um perfeccionismo próprio dos seres humanos diferenciados, dotados de um talento extraordinário.

O mundo estranho e injusto em que vivemos faz de um Negro Drama alguém sempre massacrado, cobrado, vigiado de perto. E com o Rei não foi diferente. Mas como ele mesmo cantava: aonde estiver, nunca estará sozinho...

sábado, 21 de março de 2009

Imperianos de fé

Quando o Carnaval acaba, as contestações são inevitáveis, assim como as acusações de compra de resultados, etc. É parte do processo de desfiles reclamar uma melhor posição, e em 2009 não foi diferente - ah, e a Beija-Flor foi acusada de "roubar" um vice-campeonato, agora, da Portela. Era o que faltava...

Mas incômodo mesmo foi o rebaixamento do Império Serrano. Imerecido, ao contrário de 2007. Em 2009, a corte imperiana veio com garra, alegorias simples e lindas, de extremo bom-gosto, e apenas a melhor Bateria do Rio de Janeiro - vencedora, mais uma vez, do Estandarte de Ouro, prêmio do jornal O Globo.

Discutir o porquê do rebaixamento é mais complexo. O Império não permite se vender à roda-vida que toma conta dos desfiles cariocas. Não há ninguém financiando a agremiação, e nunca houve. É chão, amor, samba puro. Talvez, por isso, não seja forte politicamente a ponto de evitar ataques como os desse ano. Mas a comunidade da Serrinha é gigante, e irá se reerguer. Porque o Império, contra tudo, contra todos, mais uma vez, mostrou que Carnaval, se faz na Serrinha, se faz em Madureira.

E Silas de Oliveira, de onde estiver, gostou da nova Aquarela que balançou a Sapucaí.

Por Sergio Conde Junior

Caro Silas,

O povo da Sapucaí - você não conheceu, é onde os desfiles acontecem agora - lhe deve um agradecimento. Conduzido pelo seu samba, o Império Serrano protagonizou o momento mais emocionante do carnaval de 2004, enfeitiçando arquibancadas, frisas e camarotes a cantar junto, num quadro eletrizante, que hoje em dia raramente se vê por ali. Seu "Aquarela brasileira" levantou a platéia e injetou paixão no Império, que fez sua melhor apresentação em muitos anos. Um episódio relicário, como diria você.

A escola que você ajudou a tornar mágica veio lotada - seu hino virou uma febre no verão do Rio - de imperianos novos e históricos, como Tia Eulália, lembra dela?, 95 anos, fundadora da verde-e-branco. Toda orgulhosa (você precisava ver), ela contava que "Aquarela" foi composta em frente à casa dela.

- Eu vi esse samba nascer do Silas.

Naquela idade toda, Eulália não quis saber de subir num carro alegórico - "coisa de perua", rotulou - e foi-se embora avenida afora, no chão. Na sua paixão, ganhou surpreendente irmã: a atriz Ana Paula Arósio, estrela da televisão que se esbaldou na ala "Circo Brasil", como a foliã mais anônima. (E olha que ela é paulista!) A bela moça se acabou de sambar, a ponto de perder um pedaço da fantasia.

- Muito maravilhoso tudo isso! - explodiu, na dispersão, desmanchando-se em elogios a seu trabalho. - O samba é lindo, sair no chão é tudo de bom, quero mais!

Quando Ana Paula entregou-se às exclamações para descrever o próprio arrebatamento, mal dava para ouvir. O setor popular, prezado Silas, a turma que gosta de carnaval de verdade, simplesmente recusou-se a aceitar o fim do desfile do Império e continuou cantando, ao som da bateria. Ah, avise mestre Macarrão que os agogôs, como de hábito, estiveram impecáveis.

Não foi perfeito, fazer o quê. A porta-bandeira, Fabiana, caiu em frente à cabine dos jurados no setor 3, uma pitada de drama na festa. E o Império não se emenda com os problemas políticos que atrapalharam a produção do desfile - a pobreza das últimas alegorias foi uma prova eloqüente. Atualmente, para ganhar precisa riqueza e rigor técnico. Você não ia gostar, mas paciência, agora é assim.

Além disso, a escola estava cheia demais, tinha uma turma nova, que veio na moda do seu samba. Muito branco, você ficaria admirado. Alguns até falam "A" Império, dá pra acreditar? Mas eles cantaram e cruzaram a Sapucaí na maior felicidade - porque também ninguém resiste à "Aquarela".

Graças ao samba mágico que você compôs, o Império Serrano trouxe de volta o carnaval de verdade. Amigos seus que participaram da apresentação de 40 anos atrás contavam que, se a escola desfilasse naquele ano como fez anteontem, seria campeã. O povo da Sapucaí vai além, acha que o título tem de vir agora. Deu gosto de ver o delírio na Praça da Apoteose - inclusive com sua ajuda de ter segurado a chuva até acabar o show. Você sabe das coisas. Como, aliás, lembrou um antigo parceiro, Moacir Rodrigues, lembra dele? criador do enredo de 1964, que deu no seu samba. Extasiado na Apoteose, ele garantiu sem vacilar:

- Silas está feliz.

Então, tranqüilize Mano Décio e não esqueça de contar ao Cartola, que como você adora um carnaval de verdade. O Império, conduzido pelo grande hino que você criou, voltou a ser inesquecível.

Parabéns, mestre.

Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 2004.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Povo Preto

É a primeira postagem do ano. Um 2009 em que, pela primeira vez na História, um negro governará a América - e, por tabela, o mundo. Pela primeira vez, também, um negro usará o número 1, de campeão mundial, num carro de Fórmula 1. Dizem, os mais otimistas, que será o Ano Preto. Quem dera...

São inegáveis as conquistas do povo preto. Igualmente inegável é o fato de que são pequenas, diante do imenso abismo que nos separa da plenitude de acesso aos direitos básicos de todo cidadão. Os exemplos de racismo explicitados na mídia são diretos, explícitos. Mas sabemos que o racismo é, na maioria das ocorrências, velado, diário, cotidiano, na forma de elevadores de serviço, ou de desconforto branco ao ver um negro entrar num ônibus, ou de branqueamento do acesso ao ensino superior, etc.

E mais: é impossível entender o racismo e os crimes cometidos contra o povo preto sem considerar fatores econômicos, culturais. Ou você realmente acha que a política genocida do Governo do Estado do Rio de Janeiro se dá apenas por causa da cor de pele, sem relação com a pobreza? Preto e pobre não são a mesma coisa, mas na realidade de uma sociedade racista, se tornam muito parecidos...

E quanto mais nos prepararmos pra identificar esse preconceito, essa lógica criminosa com os irmãos, mais preparados estaremos pra reação. Bom, estou até mais otimista. Que seja nosso ano, pois.

Paz ao povo preto, sempre.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Tragédia Catarinense


Foto: Balneário Camboriú, Santa Catarina, 26 de novembro de 2008.

Eu, sinceramente, não consigo pensar em tragédia maior do que perder sua casa, perder parte da sua vida. Na verdade, pensando bem, dor maior do que essas é construir sua vida nas calçadas, embaixo de viadutos, sem nunca ter tido um lugar pra morar. Que tais chuvas passem logo, que os danos sejam minorados - embora a dor e o trauma sejam permanentes - e que o sol volte pra um dos lugares mais lindos que esse país tem.

A Barbárie Capitalista, segundo Saramago

Poucos, hoje, entendem tão bem o mundo como ele.

Por Mair Pena Neto
http://www.diretodaredacao.com/site/noticias/index.php?not=4232

Em visita ao Brasil para apresentar seu novo livro e inaugurar uma exposição, o escritor português José Saramago lançou questões sobre o atual estágio da humanidade. “A palavra bondade hoje significa qualquer coisa de ridículo. É preciso conquistar, triunfar. Ninguém se arrisca a dizer que seu objetivo é ser bom. Querer ser bom em uma época como esta é se apresentar como voluntário para a eliminação”, disse Saramago.

O desenvolvimento do capitalismo chegou ao estágio da barbárie, com o desdém pelo próximo e o amor desenfreado pelo dinheiro e o poder. Para motivar seus funcionários, Steve Ballmer, o atual presidente da Microsoft, diz, aos berros, que ama a companhia. Se ama o seu próximo, não se sabe, mas que é capaz de dar a vida pela Microsoft parece provável pelo teor de seu discurso, que pode ser visto na internet.

Na competição desenfreada, um quer engolir o outro. Parece que não existe mais espaço para a convivência de concorrentes. O capitalismo pós-moderno enterra uma de suas máximas de que a concorrência é a alma do negócio. Nos workshops, o logotipo ou até mesmo produtos dos concorrentes são literalmente alvejados por funcionários em transe, nos quais é instilado o vírus da destruição.

Estes valores corporativos se disseminam na sociedade como um todo. O bem sucedido é o agressivo, o que aparece, o que traz resultados. Nem que para isso lance mão de práticas pouco ortodoxas. Neste universo, não há mais espaço para a solidariedade.

A atual crise financeira global começou assim, pela ganância, pela facilidade dos lucros rápidos mesmo que alavancados em bases frágeis. Quem ganhou, ganhou, quem perdeu, e nesse caso foram as economias de todos os países, que trate de lidar com os prejuízos. Nessa crise, até empresas se deram mal. Foram deixadas quebradas por dirigentes admirados que saíram com os bolsos recheados por bônus ofensivos.

A recessão que se avizinha prejudica, sobretudo, os mais pobres. O mundo subdesenvolvido, que jamais chegou perto das benesses ultracapitalistas, perde mais uma chance de avançar um estágio.

Como chegamos a isso?, indaga Saramago, perplexo, como todas as pessoas de bem, com os níveis de violência, corrupção e indiferença. Não existe uma única resposta e o escritor nos sugere que para mudarmos a vida precisamos mudar de vida.

Podemos começar sugerindo às novas gerações que busquem suas futuras profissões pensando em como poderiam contribuir para o bem comum. Que não coloquem a remuneração em primeiro plano, que ela vem como consequência da realização. E que esta não se mede apenas pelos ganhos financeiros, mas, sobretudo, pela função social de suas atividades.

Parece utópico, mas é uma tentativa. Sem um primeiro gesto tudo pode ficar como está. Mesmo com mais uma crise que jogou o mundo no chão e revelou a falência de um modelo que agoniza mas ainda não morreu.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Brecht

"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Esse imbecil não sabe que, da sua ignorância política, nascem a prostituta, a criança abandonada e o pior de todos os bandidos: o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio dos exploradores do povo."

(Bertold Brecht)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

"Nas ruas, nas praças..."

É mais do que natural encontrar certa dificuldade para construir a luta em um momento como esse, de refluxo dos movimentos sociais, que de maneira constante são tratados como caso de polícia. O problema maior é uma total falta de compromisso para com o curso, até mesmo dos que participam do Movimento Estudantil. Não se discute mais sobre o curso, seu futuro, limites e possibilidades. Agora é o momento em que nós, militantes, deveríamos fazer o que se chama "trabalho de base". Mas, pensando primeiramente em grupos ou Partidos Políticos, alguns se esquecem até mesmo da profissão que escolheram.

Desde que entrei pra Universidade, há quatro anos, me envolvi no processo. Grandes amigos que tenho hoje, conheci na luta, seja nas fileiras de protesto, seja nos ônibus, rumando pra algum, ou nas ruas, nas praças. Todo o processo é viciante, mesmo. Lutar pelo seu direito, lutar pelo acesso de outras pessoas à Universidade, tudo isso é mais do que um prazer: na minha opinião, é dever de quem conseguiu chegar lá – e possibilitar o acesso a quem não o tem é algo contido, inclusive, na teoria marxista. Mas é triste ver tanta gente usando o Movimento em prol de um grupo político, esquecendo o coletivo que dizem defender. Me cansa ver um Partido, seja ele qual for, aparelhando uma instituição. É papel desse coletivo representar os estudantes, fazê-los entender a lógica do processo, trazê-los pro debate, prepará-los, incentivá-los... mas parece funcional pra esses grupos políticos manter a alienação reinante na Academia – mantendo a Universidade numa postura elitista, de formação acadêmica da burguesia.

Percebo que as pessoas que estão comigo, nesse dia-a-dia de militância, são tão vítimas quanto os estudantes que estão de fora do Movimento Estudantil. São manipulados, muitas vezes, pelos “estudantes profissionais”: pessoas que fazem um sem número de cursos, transferidos ao bel prazer do Partido ou do grupo político que representam. De quem é a culpa? Não sei dizer. Mas, mesmo com tudo isso - e, talvez, exatamente por tudo isso -, é preciso que se entenda: esse espaço é nosso. Temos a obrigação de participar, pois a construção é coletiva. Então, vá pro seu Centro Acadêmico, Diretório, Grêmio, Associação, enfim, faça valer seu direito. Muita gente perdeu a vida tentando resgatá-lo.

No mês de julho próximo, os estudantes do Serviço Social brasileiro têm seu maior evento político: o Encontro Nacional de Estudantes, realizado em Londrina (PR). O Rio de Janeiro encontra-se num momento delicado da conjuntura nacional, sem tanta expressividade como antes, e com um índice de rejeição altíssimo. Mais do que nunca, precisamos de novas idéias, novos quadros, pra que possamos reverter tal situação. E para que, de fato, possamos ter um Movimento Estudantil representativo, de luta e autônomo.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Ramom e Daniel

Atingido por um tiro disparado por um policial, na porta de casa em plena manhã do dia 28, na favela do Muquiço, em Deodoro, Rio de Janeiro, o menino Ramom foi levado para o Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes. Como não havia neurocirurgião, recebeu apenas os primeiros socorros e foi encaminhado para o Hospital Getúlio Vargas, na Penha, onde, por volta de 14h, começou a ser operado. Às 18h30, ele saiu do hospital, que não tinha CTI, e foi levado para o Hospital da PM. Mas era tarde demais. Uma semana após o crime, a Polícia Civil fará a reconstituição do caso. Não se faz idéia de quem seja o culpado. A mãe do menino acusa a Justiça de negligência.

Daniel foi baleado na madrugada do dia 28, em confusão na saída da boate Baronetti, em Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro. Foi atingido no tórax pelo terceiro tiro disparado pelo PM Marcos Parreira do Carmo, que antes deu dois tiros para o alto. O policial militar será denunciado por homicídio doloso nesta terça-feira. A mãe do rapaz se mostrou satisfeita com a posição do Ministério Público. “Eu não esperava outra coisa. Isso mostra que estamos no caminho certo. Agora vamos para cima, para a condenação. Vou acompanhar tudo isso de perto”, avisa a mãe, que ainda se choca por precisar lutar pelo que considera um direito.

Os dois crimes citados acima aconteceram quase ao mesmo tempo. Foram cometidos por policiais militares. E o tratamento diferenciado às vítimas é desumano, cruel. Nesse caso, a Justiça enxerga, e assim fazendo comete outro crime. Isso é o reflexo de uma cidade partida. Deodoro fica a uma hora de Ipanema, mas a real distância entre os dois bairros é de anos-luz. A família do Daniel acha um absurdo lutar por um direito, mas a de Ramom nem reconhece isso como direito, porque suas vidas valem um voto, um número na estatística.

Quantos e quantos casos parecidos aconteceram? Em quantas vezes ficou claríssima a diferença de tratamento, através do corte de renda? Aqui, há um fato novo e macabro: a coincidência de dia e, praticamente, de hora. Daria um filme. Você pagaria o ingresso?

Não precisa. Pega um trem pro subúrbio e abre a janela.

sábado, 28 de junho de 2008

O sentimento não pára!

Noite agitada. Fui dormir sonhando que Roberto Dinamite, o maior ídolo da história do maior clube da minha vida, se tornara presidente do Vasco, mandando Eurico Miranda pra vala do esquecimento. Ovacionado nas ruas do Rio de Janeiro, Roberto prometia, no meu sonho, acabar com privilégios, trazer o Vasco de volta para as disputas esportivas, respeitar torcida, imprensa.

Que sonho! Parecia tão real, e logo lembrei de como o Corinthians se livrou de Dualib, ou de como Mustafá Contursi foi chutado pra longe do Palmeiras. Mas, era tão impossível até bem pouco tempo... é só um sonho mesmo.

Mas aí, acordei. E é tudo verdade.

Parabéns, vascaíno. Estamos de volta. Dinamite Presidente!

Marco Zero

Vocês chegaram a este blog por algum motivo: ou porque procuraram no Blogger, ou porque eu dei o endereço, enchi o saco pra entrarem, etc. Pois, neste post inicial, quero explicar a proposta deste espaço.

A Internet está saturada de lugares assim, com dublê de escritores, como eu, dividindo espaço com gente que sabe o que faz. Mas eu sinto falta de um canal pra escrever o que sinto, penso, acho das coisas. Mesmo que ninguém leia, comente, também é um exercício feito pra mim mesmo.

Aqui, então, espero falar de tudo. O título do blog, Samba Esporte Clube, é uma alusão a duas das minhas maiores paixões: o samba e o futebol. Um professor meu diz que tudo se discute, não devemos construir tabus em torno desse ou daquele assunto. Assim, toda e qualquer temática é permitida e obrigatória: política, religião, sexo, cinema, até fofoca.

Espero fazer deste espaço um lugar de construção coletiva. Espero que gostem e participem ativamente.

Camaradas de luta, ou não, sejam bem-vindos!